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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

EJA ainda é um desafio

A realidade da educação de jovens e adultos no sistema educacional brasileiro ainda é um grande desafio, assim como o texto de Regina Hara que significativamente nos traz ideias fundamentais:
“Os desafios enfrentados pelos educadores na EJA: em ensinar, em lidar com a motivação dos estudantes, em conseguir desenvolver a conscientização dos alunos e, até mesmo, a questão da evasão escolar. Muitos destes desafios são originados por fatores de ordem social, pela estrutura social que vivemos: sociedade excludente, que marginaliza, por questões culturais, mas também, pela falta de formação específica para os professores nesta realidade.
Aproveitar as vivências destes alunos para promover o processo educativo, conforme Regina Hara isso fica evidente, principalmente, quando enfatiza a percepção de Paulo Freire para o desenvolvimento das aulas. Precisamos, como educadores, resgatar a experiência de vida, de trabalho, das relações sociais acumuladas e as hipóteses dos sujeitos a respeito da escolarização. Trabalhar desta forma significa a educação e a aproxima da própria realidade contribuindo com a conscientização dos sujeitos e com o desenvolvimento de uma democratização social.É necessário compreender as expectativas dos alunos com relação à escola para saber se esta escola, de fato, está inserida e contribuindo para a vida destes alunos. A EJA não só beneficia a formação dos sujeitos jovens e adultos como também incide sobre o próprio processo de construção de conhecimento das crianças. Isso porque contribui com a qualificação da formação destes sujeitos jovens e adultos que, certamente, promoverão em suas casas um espaço letrado e de uso social da leitura e da escrita.
A construção das hipóteses da escrita das crianças, jovens e adultos é semelhante, como destaca o texto de Regina Hara, a partir de estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, que assim como Freire, compreendem o sujeito como ser de saberes e construtor de seu conhecimento, bem como na grande maioria fazem compreensão da escrita da escola e por isso também criam hipóteses sobre a mesma.

domingo, 4 de outubro de 2009

Metodologias X EJA

A metodologia a ser usada na Educação de Jovens e Adultos, ao meu ver necessita de constantes reflexões, bem como não devemos nos ater a uma metodologia que não esteja efetivamente trazendo resultados esperados.
Por exemplo, usando o método analítico, o aluno é incentivado a decompor uma palavra em sílabas e, depois de isolar cada sílaba, construir sua família: se ele concebe a sílaba como uma só letra, fica difícil perceber a lógica da proposição. Não queremos dizer que o aluno não venha a perceber como isso se dá, mas a forma de trabalhar tira a possibilidade do aluno usar suas hipóteses, tendo que seguir outro caminho.
Isto reforça uma tese do fracasso da alfabetização. Aqueles que de um modo ou de outro aprendem a ler, podem ter se encontrado com uma conduta metodológica compatível com seu estágio de concepção sobre a escrita. Aí estaria uma questão de profundo significado: não é o método que se elege que promove a alfabetização, mas é todo um conjunto de conhecimentos e a postura intelectual que adotamos com relação aos sujeitos e ao objeto da aprendizagem.

EJA X Alfabetização X Emília Ferreiro

Em função dos dados obtidos com crianças, Emília Ferreiro, interessou-se por investigar como os adultos não escolarizados concebiam a escrita. Partia do princípio de que se a compreensão do código escrito precede a entrada na escola, os adultos não escolarizados teriam também, como as crianças, algumas concepções sobre a escrita. Os resultados da investigação permitiram concluir que a aquisição da escrita é uma aquisição conceitual para crianças e adultos, construída pelo sujeito nas relações com o meio, do mesmo modo que se observa em outras áreas do conhecimento.
Os níveis estruturais da linguagem desenvolvidos por Emília Ferreiro e seus colaboradores
com os adultos mostra que os mesmos conhecem o nome de algumas letras e podem usá-las na interpretação de um texto, mostram que são conscientes de que a escrita é um sistema de representação baseado em representação sonora, isto é, o escrito representa o falado. Mostram
também saber que há uma relação entre o nome da letra e o valor sonoro que ela representa.

EJA X Alfabetização X Paulo Freire

A metodologia da alfabetização de adultos, normalmente levados por uma sistematização, a leitura mecânica do chamado Método Paulo Freire, educadores de adultos tem aceito o desafio simplista de escolhidas determinadas palavras ligadas à realidade do educando, desenvolver processos de discussão e/ou aprendizagem que impliquem simplesmente na decodificação de tais palavras e na sua silabação, visando à construção de novas palavras. Tais movimentos, além de se tornarem mecânicos (como se o processo de alfabetização fosse um caminho linear de incorporação de novas sílabas ao universo de aprendizagem do educando), acabam não considerando a experiência acumulada por este educando e suas hipóteses à respeito de como tal processo de escolarização se realiza.
Ao conceber o homem como ser de vocação ontológica para ser sujeito, como um ser de relações atuando na realidade, já se antecipa que, para Paulo Freire, o processo de aprendizagem é dinâmico e ativo. Quando aceitamos que o homem seja sujeito na compreensão do mundo, aceitamos que também o seja na construção do seu conhecimento sobre a escrita, uma parcela do conhecimento social.
Paulo Freire entende alfabetização como um ato de conhecimento, no qual "aprender a ler e escrever já não é, pois, memorizar sílabas, palavras ou frases, mas refletir criticamente sobre o próprio processo de ler e escrever e sobre o profundo significado da linguagem".
Vemos claramente como para ele aprendizagem da leitura e escrita se coloca como um processo. O trecho seguinte esclarece a relação do alfabetizando com o conhecimento e o papel do alfabetizador:

"... sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como ato criador. Para mim, seria impossível engajarme num trabalho de memorização mecânica dos ba-be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo-lu. Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Ensino em cujo processo o alfabetizador fosse 'enchendo' com suas palavras as cabeças supostamente 'vazias' dos
alfabetizandos. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo da alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem ."

A descoberta da estrutura silábica da palavra geradora, a composição das famílias silábicas e a criação de novas palavras, é absolutamente coerente com a colocação do alfabetizando como sujeito da construção do seu aprendizado. E mais ainda, ao escolher palavras de profundo significado para os sujeitos, estamos assegurando o envolvimento do educando com elas.

Gente grande também brinca...

Quem disse que adultos não gostam de brincar?
Os alunos da EJA são adultos trabalhadores, que chegam à escola cansados, saem do trabalho na corrida para ir até em casa tomar um banho e ir à escola, quando o conseguem fazer, pois em muitos casos os alunos iam direto do trabalho para a escola.
Enfim o cansaço é um limitante significativo, então como forma de estimular e desopilar realizávamos atividades recreativas, com as quais os alunos cansavam e riam muito, mas acabávamos com o cansaço mental, que em minha opinião é muito pior que o físico. Em seguida retornávamos à aula e trabalhávamos com mais prazer, sem contar que o relacionamento entre os alunos melhorou bastante.

EJA e Alfabetização

A Educação de Jovens e Adultos traz grandes e contínuos desafios, em que nós professores devemos sempre estar motivando o aluno para que não desista, procurando resgatar sua autoestima e buscar meios para a concretização da alfabetização.
Do ano de 1999 a 2002 trabalhei com Alfabetização da EJA, primeira e segunda séries do ensino fundamental, ou seja, quatro anos dedicados à alfabetização de jovens e adultos.
A formação da turma trazia a diversidade em si: alunos jovens, alunos de meia idade e alunos idosos. Nestas turmas convivi com alunos reintegrados a escola por determinação do juiz, em que vejo retratada a Inclusão social na função reparadora do PARECER CNE/CEB 11/2000.
Nesta caminhada “sai do mundo em que eu vivia” e conheci duras realidades, portanto o trabalho com a EJA, eu acredito que sempre será um desafio, mas é muito gratificante.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Minhas vivências com a EJA

Gostaria de falar um pouco da minha experiência com a EJA, de 1997 à 2002.Neste período trabalhei com séries finais, por meio do Telecurso 2000 e também na Alfabetização, onde tive alunos jovens, alunos de meia idade e alunos idosos. Nestas turmas de Alfabetização estudavam dois jovens, reintegrados a escola por determinação do juiz, novamente via-se retratada a Inclusão social.Um por envolvimento em roubos, o outro por ter envolvimento em briga e tentativa de homicídio, bem como ambos eram usuários de drogas.O primeiro sempre muito quieto, introvertido, mas que me deixava assustada. Este concluiu a primeira e segunda série, mas no ano seguinte não voltou aos estudos. Algum tempo depois li no jornal que fora preso por estupro.O segundo era o oposto, falava muito, por sinal irritava os colegas. Certo dia um colega chamou-lhe a atenção e este ficou tão perturbado que começou a riscar fósforos na idéia absurda de atear fogo no colega dentro da sala de aula.Alguns dias depois trouxe uma carta que recebera da namorada, a qual me pediu que lesse, pois ainda não compreendia o que lia. Neste dia ele me contou muitas coisas em que estava envolvido, situações bem complicadas e disse que iria mudar-se para um município do interior. Dias depois não mais compareceu à escola.Já os idosos, que saudades, estes tinham o desejo de aprender a ler e escrever, assinar o nome, no entanto cheios de traumas e bloqueios.Nesta caminhada com a EJA, vivenciei as grandes dificuldades que os alunos trazem consigo nas séries iniciais, mas quando superam-nas, a aprendizagem passa a ser compreendida em sentido amplo, como parte essencial da vida. O trabalho com a EJA é muito gratificante.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Função Permanente ou Qualificadora - EJA

Conforme o PARECER CNE/CEB 11/2000, a função permanente ou qualificadora em que a educação de jovens e adultos deve ser vista como uma promessa de qualificação de vida para todos, propiciando a atualização de conhecimentos por toda a vida. Mas do que função, ela é o próprio sentido da EJA, que tem como base o caráter incompleto do ser humano, cujo potencial de desenvolvimento e de adequação pode atualizar-se em quadros escolares ou não-escolares. Mais do que nunca, ela é um apelo para a educação permanente e criação de uma sociedade educada para o universalismo, a solidariedade, a igualdade e a diversidade.

Função Equalizadora - EJA

Conforme o PARECER CNE/CEB 11/2000, a função equalizadora aplica-se àqueles que antes foram desfavorecidos quanto ao acesso e permanência na escola, devendo receber, proporcionalmente, maiores oportunidades que os outros, para ter restabelecida sua trajetória escolar de modo a readquirir a oportunidade de um ponto igualitário no jogo conflituoso da sociedade. Por último, a qualificação, mais do que função, é o próprio sentido da EJA. Tem como base o caráter incompleto do ser humano que busca atualização em quadros escolares e não escolares. Jovens empregados, subempregados ou não, podem encontrar nos espaços e tempos da EJA, nas funções reparadora, equalizadora ou qualificadora, um lugar de melhor capacitação para o mundo de trabalho, construindo conhecimentos, habilidades, competências e valores (BRASIL, 2000, p.30-39). A função equalizadora dará cobertura a trabalhadores e a tantos outros segmentos da sociedade possibilitando–lhes a reentrada no sistema educacional. Há que se reconhecer no seio da sociedade a existência da diversidade e garantir nas políticas públicas a efetivação de oportunidades diferentes para eliminar as desigualdades, equalizar o acesso aos bens sociais e o exercício da cidadania, fazendo cumprir com o princípio constitucional de que a educação é direito de todos.

Função Reparadora - EJA

Conforme o PARECER CNE/CEB 11/2000, a função reparadora constitui-se na restauração do direito a uma escola de qualidade, o que significa ter acesso a um bem real, social e simbolicamente importante, contribuindo para a conquista da cidadania e a inserção no mundo do trabalho, através da aquisição das competências exigidas para isso. A função reparadora significa a entrada no circuito dos direitos civis pela restauração de um direito negado: o direito a uma escola de qualidade e o reconhecimento de igualdade de todo e qualquer ser humano. Significa não só a entrada no circuito dos direitos civis pela restauração de um direito negado – o direito a uma escola de qualidade, mas também o reconhecimento daquela igualdade ontológica de todo e qualquer ser humano.
A função reparadora deve ser vista, ao mesmo tempo, como uma oportunidade concreta de presença de jovens e adultos na escola e uma alternativa viável em função das especificidades sócio-culturais destes segmentos para os quais se espera uma efetiva atuação das políticas sociais. É por isso que a EJA necessita ser pensada como um modelo pedagógico próprio a fim de criar situações pedagógicas e satisfazer necessidades de aprendizagem de jovens e adultos.

Educação de Jovens e Adultos

Os alunos da EJA, quando retornam à escola, trazem muitos saberes e as situações do cotidiano escolar oferecem condições favoráveis ao processo de formação continuada e produção de saberes pelos alunos e professores.
Cabe, portanto, à escola, orientar seu trabalho com o objetivo de preservar e impulsionar a dinâmica do desenvolvimento e da aprendizagem, preservando a autonomia do aluno e favorecendo o contato sistemático com os conteúdos, temas e atividades que melhor garantirão seu processo e integração como alfabetizando e cidadão. Assumir-se como aluno, após um longo período de afastado da escola, consiste em uma das grandes dificuldades apresentadas pelo adulto trabalhador. A necessidade imperativa de desenvolver a disciplina necessária aos estudos, o pouco tempo livre para estudar em casa, o cansaço sentido, após um dia inteiro de trabalho, a percepção de possuírem um ritmo diferenciado de aprendizagem, demandando mais tempo e atenção, tudo isso contribui para tornar ainda mais tensa e difícil a retomada da trajetória de escolarização.
Demandar um trabalho específico que considere seu contexto de vida, necessidades de aprendizagem, desejos e expectativas em relação à escola e o vasto mundo de conhecimentos construídos ao longo da vida é tarefa da escola, portanto, repensar conteúdos trabalhados é fundamental para uma prática docente que considere o aprender em uma dimensão mais ampla e coletiva. Devemos considerar, dessa forma, a valorização da palavra, da autonomia e da inclusão de valores éticos e sociais.
A EJA apresenta-se como uma maneira para enfrentar as adversidades e à medida que os alunos atribuem à obtenção aos níveis de escolaridade a condição necessária para a ascensão profissional com a conquista do trabalho mais qualificado, ou ainda a possibilidade de cursar uma universidade.
No que diz respeito à relação trabalho, escola e cultura, os resultados desse trabalho mostram a necessidade de oferecer aos jovens e adultos, condições concretas de participação, tanto nas questões de trabalho, quanto na política social. Os alunos têm o direito de fazer parte do mundo letrado, percebendo que os saberes sistematizados facilitam suas relações pessoais e sua integração profissional.