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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Concepções de índio

A denominação índio ou indígena, segundo os dicionários da língua portuguesa, significa nativo, natural de um lugar. São também o nome dado aos primeiros habitantes (habitantes nativos) do continente americano, os chamados povos indígenas. Mas esta denominação é o resultado de um mero erro náutico. O navegador italiano Cristóvão Colombo, em nome da Coroa Espanhola, empreendeu uma viagem em 1492 partindo da Espanha rumo às Índias, na época uma região da Ásia. Castigada por fortes tempestades, a frota ficou à deriva por muitos dias até alcançar uma região continental que Colombo imaginou que fossem as Índias, mas que na verdade era o atual continente americano. Foi assim que os habitantes encontrados nesse novo continente receberam o apelido genérico de “índios” ou “indígenas” que até hoje conservam. Deste modo, não existe nenhum povo, tribo ou clã com a denominação de índio. Na verdade, cada “índio” pertence a um povo, a uma etnia identificada por uma denominação própria, ou seja, a autodenominação, como o Guarani, o Yanomami, etc.
Quando era criança e falávamos em índios, logo eu pensava em gente nua na mata, gente agressiva ou ainda em pessoas pobres pedindo esmola nas cidades. Muito errado, pois lendo o texto entendo que não existem índios, mas povos, isto é, conjunto de pessoas unidas por uma história, uma cultura, uma língua comum, que as diferenciam umas das outras. São povos nativos ou originários, porque foram os primeiros habitantes deste continente.
Com o surgimento do movimento indígena organizado a partir da década de 1970, os povos indígenas do Brasil chegaram à conclusão de que era importante manter, aceitar e promover a denominação genérica de índio ou indígena, como uma identidade que une, articula, visibiliza e fortalece todos os povos originários do atual território brasileiro e, principalmente, para demarcar a fronteira étnica e identidária entre eles, enquanto habitantes nativos e originários dessas terras, e aqueles com procedência de outros continentes, como os europeus, os africanos e os asiáticos. A partir disso, o sentido pejorativo de índio foi sendo mudado para outro positivo de identidade multiétnica de todos os povos nativos do continente. De pejorativo passou a uma marca identidária capaz de unir povos historicamente distintos e rivais na luta por direitos e interesses comuns. É neste sentido que hoje todos os índios se tratam como parentes. O termo parente não significa que todos os índios sejam iguais e nem semelhantes. Significa apenas que compartilham de alguns interesses comuns, como os direitos coletivos, a história de colonização e a luta pela autonomia sociocultural de seus povos diante da sociedade global.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pluralismo étnico-cultural e racial brasileiro


Vendo a escola como o espaço onde se encontra a maior diversidade cultural, e por isso trabalhar as diferenças é um desafio para nós professores, pois somos mediadores do conhecimento, ou melhor, facilitadores do processo ensino-aprendizagem.


A escola é o lugar ideal para discutir as diferentes culturas, e suas contribuições na formação do nosso povo, o pluralismo étnico-cultural e racial da sociedade brasileira. Assim nós, como educadores e responsáveis pela formação de crianças e jovens temos de nos preocupar com as questões da diversidade e com os preconceitos na sala de aula e no espaço escolar, para desta forma educar para a igualdade, buscando uma educação para a democracia, conforme cita Eliana Oliveira, "A identidade confere diferenças aos grupos humanos. Ela se evidencia em termos da consciência da diferença e do contraste do outro."

Afro-descendentes em minha escola


Com base nestes dados realizei o levantamento de raças na escola. A partir do estatístico de raças dos alunos, conforme declaração dos pais no ato das matrículas e rematrículas:
brancas - 273, pardas - 23, negra - 1, amarela - 1 e não declaradas- 87.
Analisando os dados estatísticos da escola pude perceber como há pessoas que não se declaram, não assumem sua raça.
Conversando com alunos afro-descendentes sobre aspectos étnico-raciais, procurei primeiro deixá-los bem à vontade, para que não criasse expectativas ou despertasse razão para a discriminação.
O primeiro aluno não fora diretamente entrevistado, mas tenho observado seu comportamento desde que falamos em assuntos étnico-raciais. Inicialmente este não se aceitava como negro, embora dissesse que seu apelido era "Neguinho". Dias depois, quando falávamos em questões étnico-raciais este insistia em repetir que era negro. Quando iniciamos o projeto sobre os Índios, o aluno contou-nos que tinha origens indígenas, não há uma conservação de ideias, este ainda não compreende claramente suas origens, bem como muda rapidamente de opiniões.
A segunda entrevista fora realizada com duas irmãs que tem um histórico mais complicado, pois ambas estudam na mesma série, vem de uma outra escola onde sofriam discriminação, principalmente uma das duas, pois tem uma mancha no rosto, esta aluna está defasada, é muito séria e não conversa muito, essencialmente o básico, creio que nestas dimensões desenvolveu mecanismos de defesa que prejudicaram o desenvolvimento pleno da sua aprendizagem. Acredito que hoje esta aluna esta em fase de superação de atos discriminatórios que sofrera e que diminuem sua auto-estima e inibem o pleno desenvolvimento cognitivo. Já a irmã, com menos traços da raça, é mais tranquila, não dá tanta importância aos aspectos étnico-raciais, parece estar à vontade, ao contrário de sua irmã é muito falante e espontânea.
O último entrevistado, o único no estatístico que se assumiu como negro, é um garoto admirável, dono de uma simpatia sem igual. Estudante de nossa escola desde a primeira série, quando questionado diz que se sente igual aos outros colegas, que não sofre discriminação, que ser negro não lhe traz problemas. Assim percebo o aluno em sala de aula, muito tranquilo e bem aceito no grupo de convivência escolar. Nesta entrevista descobri que já fui professora de sua irmã, com a qual eu também, nunca presenciei sofrer nenhum tipo de discriminação.
Acredito que é fundamental o olhar na multiculturalidade existente em nossas salas de aula, pois cabe ao professor o dever de entender e orientar no sentido de compreender as culturas, mudar as crenças preconceituosas, de modo a descobrir a riqueza que há dentro de cada criança.
Talvez o fato de hoje, outras etnias estarem menos presentes em nosso cotidiano, ter perdido a forte expressão que tinham nesta região, traga um conforto aos alunos negros que tanto sofriam a discriminação na escola, pois os reflexos dos preconceitos na sociedade brasileira caminham lentamente para a igualdade. Lembro que quando eu era criança, meu pai, descendente de etnia alemã, tinha muito presente que ser negro era depreciativo, no entanto mesmo ouvindo sua fala racista eu nunca consegui ter a mesma opinião que ele sobre um negro pelo fato de ser outra cor, cultura, poder aquisitivo inferior ou superior, não incutiu em mim estes falsos valores.

Dimensões da Expressão Afro-Cultural


Ao longo de nossa história, na qual a colonização se fez presente, a escravidão e o autoritarismo contribuíram para o sentimento de inferioridade do negro brasileiro. A ideologia da degenerescência do mestiço, o ideal de branqueamento e o mito da democracia racial foram os mecanismos de dominação ideológica mais poderosos já produzidos no mundo, que permanecem ainda no imaginário social, o que dificulta a ascensão social do negro, pois este é visto como indolente e incapaz intelectualmente. No Brasil, os dados oficiais mostram que as desigualdades sociais são mais profundas à medida que as pessoas pobres não só são empobrecidas, mas são negras. O Brasil branco é 2,5 vezes mais rico que o Brasil negro. Nos últimos anos, as diferenças entre negros e brancos vêm se mantendo. Na educação, um branco de 25 anos tem, em média, mais do que o dobro de anos de estudo do que um negro da mesma idade.
Passados mais de trezentos anos, as comunidades negras e os quilombos são exemplos de resistência cultural e social do povo negro em meio ao conjunto da sociedade brasileira, ainda injusta e discriminadora.
Conforme o censo mais recente, quarenta e quatro por cento da população brasileira é afro-descendente, mas só cinco por cento das pessoas se declaram negras. Estes dados se tornam mais ainda espantosos quando sabemos que, da população brasileira mais empobrecida, sessenta e quatro por cento são pessoas negras. Analisando os dados estatísticos da escola pude perceber o quão há pessoas que não se aceitam, pois no fato de não declarar sua raça, estão omitindo suas raízes.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A estética


A estética faz referência ao belo, onde devemos levar educando a refletir sobre a mesma, levamos o aluno a pensar se há perfeição, se por ser branca uma pessoa seja perfeita,... A educação estética do ser humano requer coragem para compreender mais do que as lógicas do mundo e abrir os horizontes para associação de ideias, impressões e sentimentos, pois "Tudo é forma, até a vida." , escreveu Balzac, reconhecendo um paralelo entre obra de arte e a vida humana. Esta afirmação é bem pertinente à reflexão que fiz com os alunos sobre as diferenças de cor e até mesmo fazer um comparativo com lápis de cor, em que lhes perguntei se há uma cor mais importante do que a outra em suas caixinhas de lápis de cor, que assim como os lápis, somos diferentes, tendo cada qual a sua beleza.

A ética e o ser humano


A ética diz respeito à realização do homem como homem. Isto é, enquanto ser que possui várias dimensões a realizar para sentir-se plenamente humano. Esta realização do homem precisa dar-se na comunidade, no social, porque é lá que se dão os atos morais, econômicos e políticos, é lá que o homem realiza seu ser, seu ser social. Diz respeito às reflexões sobre as condutas humanas em geral. A pergunta ética por excelência é: como devo agir perante o meu semelhante? Isto nos leva a concluir que não bastam apenas mudanças pessoais, individuais; exigem-se mudanças estruturais, radicais no sistema em que vivemos para acabar com os desníveis sociais, geradores de degradação moral e humana.
Conforme citação de Colombo (1993, p. 53), "É por demais sabido que a escola é um agente importante na formação ética dos cidadãos, um determinante nas suas concepções éticas. A escola pode servir como exercício da política, da cidadania, da consciência, da ideia e do respeito à coisa pública."

A escola deve ser um espaço aberto às diferenças

Olhar a especificidade da diferença é instigá-la e vê-la no plano da coletividade. Pensar numa escola pública de qualidade é pensar na perspectiva de uma educação inclusiva. É questionar o cotidiano escolar, compreender e respeitar o jeito de ser negro, estudar a história do negro e assumir que a nossa sociedade é racista. Construir um currículo multicultural é respeitar as diferenças raciais, culturais, étnicas, de gêneros e outros.
Lembro-me de uma aluna que tive no primeiro ano, em 2007, esta não sofria discriminação por parte dos colegas da turma, percebia, no entanto que ela sentia-se diferente, era completamente apática, não buscava o diálogo, os colegas que procuravam entrosar-se com ela, mas não tinham abertura com a mesma. Já no ano passado criou laços muito fortes com um colega da turma, que zelava por ela e era o amigo em quem ela confiava. Infelizmente a menina saiu da escola, agora em sua atual escola disseram-me que fica completamente isolada. Uma colega encontrou-na durante o recreio na outra escola e procurou dialogar com ela, mas ela não fazia questão de responder, sequer ela sabia o nome de sua professora. Esta aluna apresentava dificuldades de aprendizagem, sendo que estas podem estar ligadas às questões sociais, pois não a percebia inserida na escola, muito menos aberta à aprendizagem, pois ela não dava abertura para que pudéssemos intervir e não fora por falta de diálogo com a família.
Esta realidade é perversa, cultuamos a ideia de um Brasil que luta contra as distinções raciais e de gênero, mas que, ao mesmo tempo, ainda guarda resquícios de um processo de escravidão do qual se envergonha. Aqui podemos citar também as questões filosóficas voltadas à ética e à estética, em que também se analisa o sistema social.
A escola, como espaço de integração social, poderá possibilitar a consciência da necessidade dessa integração, desde que todos tenham a oportunidade de acesso a ela e possibilidade de nela permanecer. A educação escolar ainda é um espaço privilegiado para crianças, jovens e adultos das camadas populares terem acesso ao conhecimento científico e artístico do saber sistematizado e elaborado, do qual a população pobre e negra é excluída por viver num meio social, normalmente desfavorecido.
A escola é o espaço onde se encontra a maior diversidade cultural, por isso trabalhar as diferenças é um desafio para o professor, por ele ser o mediador do conhecimento, ou melhor, um facilitador do processo ensino-aprendizagem. O professor tendo um saber crítico, poderá questionar esses valores e saberá extrair desse conhecimento o que ele tem de valor universal.

A presença da diversidade em sala de aula

O trabalho realizado com base na diversidade em sala de aula trata questões delicadas voltadas a etnias, raças, origens, diferenças e semelhanças. Desta forma procurei explorar mais aspectos da identidade, na construção do respeito à diversidade. A identidade evidencia diferenças nos grupos humanos conscientizando para as diferenças e os contrastes com outros, pois o aluno está em formação física, cognitiva e moral.
O desenvolvimento das atividades fora realizado com alunos do primeiro ano, no entanto conforme citei no fórum estes não tem preconceitos ou se o fazem, quando questionados, consegue-se contornar a situação. No entanto percebo que com o passar do tempo o preconceito renasce nestas crianças pois está incutido nas famílias, nos grupos de relacionamento e na mídia. Talvez pensar a diversidade, em sala de aula, seja um dos caminhos para combater os preconceitos e discriminações ligadas às raças, gêneros, deficiências , idades e culturas, constituindo assim uma nova ideia para sociedade como a nossa que é composta por diversas etnias, nas quais as marcas de identidade, como cor da pele, modos de falar, diversidade religiosa, fazem a diferença em nossa sociedade.
Nós, professores, temos a obrigação de perceber as diferenças étnico-culturais sobre essa realidade cruel e desumana. Assim, a intervenção pedagógica poderá contribuir para que ela venha conviver nesta sociedade, de múltiplas configurações de forma a compreender essas diferenças e como são produzidas na sociedade.

A diversidade

Num mundo de grandes desigualdades, nem sempre é fácil lidar com a diferença. Ela está em toda parte. Por vezes, é mais simples percebê-las quando a questão envolve apenas times de futebol, duas religiões, dois partidos políticos, duas formas de agir. Na abordagem de temas mais complexos, ou simplesmente se a proposta exige um exercício crítico rigoroso, podemos dizer que, mesmo entre os mais semelhantes, habitam numerosas diferenças, afinal, cada ser humano é único no conjunto de suas características.
Viver em sociedade implica na necessidade de uma postura em relação às diferenças, essa tende a ser uma condição comum até para quem busca compreender a ética ou a justiça. Mas, e quando as diferenças não são perceptíveis? Ou melhor, o que ocorre quando, em vez de reconhecê-las e valorizá-las, passamos ao largo e assumimos o posicionamento de quem prefere fingir que elas não existem?
Em primeiro lugar, para que um assunto gere discussão e divergência, é preciso que ele seja abordado. Do contrário, a tendência é supormos que o nosso ponto de vista é o único correto. Mais que isso: quando atribuímos juízo de valor às semelhanças e às diferenças, perdemos de vista o que elas podem proporcionar de melhor para uma compreensão mais apurada do mundo em que vivemos. Não deixar que elas se revelem é negar uma possibilidade essencial para a transformação da sociedade: a partir dessa percepção, reformulamos nosso modo de ver as coisas do mundo e, por consequência, o próprio mundo. Esse seria o papel do verdadeiro cidadão, ou seja, descobrir que tipo de consequência tem origem no ato de interpretar o mundo, de uma forma ou de outra. Com essa visão, a descoberta das diferenças pode ser uma experiência enriquecedora.